Está faltando água?
A questão da água tem se tornado no últimos anos um tema de elevada notoriedade em virtude das mudanças climáticas pelas quais o nosso planeta tem passado, do intenso crescimento populacional e consequentemente da falsa impressão de escassez hídrica em alguns lugares do globo. Refiro-me à falsa impressão de escassez hídrica pelos fatos mais adiante expostos.
De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), algumas regiões do planeta apresentam extrema escassez de água. O continente mais afetado é a África, cujo crescimento populacional, pobreza e subdesenvolvimento são bastante acentuados. Nesse lugar, o desenvolvimento de programas de distribuição de água potável e de saneamento são cada vez mais urgentes e devem levar em consideração questões demográficas, econômicas, políticas, climáticas e seus impactos nos recursos hídricos, (UNESCO, 2013).
Existe uma ambiguidade considerável nos dados apontados pela literatura em relação a estudos realizados por geólogos do governo brasileiro e apresentados pela ANA (Agência Nacional das Águas), no que diz respeito à quantificação das reservas mundiais e distribuição de água. No capítulo 2 escrito por Igor Shiklomanov em (GLEICK, 1993), estão presentes alguns dados concernentes a este assunto obtidos por cientistas soviéticos. Em valores aproximados, cerca de 96,5% da água em todo o mundo está presente nos oceanos. Os 3,5% restantes correspondem à água fresca. Desses 3,5%, apenas 0,37% não estão presentes nos polos em forma de gelo. Ou seja, de toda a água presente na superfície da terra, menos de 0,02% está presente na forma de água fresca pronta para o consumo humano.
Os países que praticamente detém as reservas de água no mundo são o Brasil, Rússia, China e Canadá. Isso demonstra o quão irregular é a distribuição de água no mundo, e como já foi dito, uma boa parte da população está situada em regiões com carência de água. No presente momento, cabe a estes países, em caráter de urgência, desenvolver tecnologias que permitam a captação, armazenamento e preservação da água e seus mananciais.
No âmbito nacional, no que tange à disponibilidade/volume de recursos hídricos, o Brasil encontra-se em uma situação bastante confortável. Não obstante, chega a ser um paradoxo, observar que um país tão rico em reservas hídricas possua, a exemplo de outras partes do mundo, regiões tão díspares em capitação, abastecimento e fornecimento de água para a população e setor industrial de um modo em geral. Isso explica em partes o fortalecimento econômico de algumas regiões em detrimento de outras.
Um dado bastante intrigante é que o volume geral de água na terra é a mesmo há centenas de milhões de anos, sendo alterados apenas a sua distribuição e estado, sua distribuição nos reservatórios naturais e artificiais e a perda de sua qualidade, o que eleva o seu custo e aumenta a exclusão social. No Brasil isso também é verdade. A água passa então a ser perdida para o consumo graças à poluição e contaminação, inviabilizando a sua reutilização e provocando uma diminuição do volume de água aproveitável na Terra.
O que provavelmente foge do conhecimento geral é que existe uma abundante distribuição hídrica presente em aquíferos subterrâneos ao longo de todo o território nacional. O maior deles e também o maior do mundo é o Guarani, (ANA, 2013). Localizado na bacia sedimentar do Paraná, ocupa uma área de 1,2 milhões de km2, estendendo-se pelo Brasil e fora dele, sendo que: 71% desta área encontra-se e território brasileiro, 19,1% na Argentina, 6,1% no Paraguai e 3,8% no Uruguai, (OEA, 2009). De acordo com o relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA) , este aquífero contém aproximadamente 48000 km3 de água, quantidade esta superior a de todos os rios e lagos de todo o planeta Terra. Ainda segundo o relatório da OEA, estima-se que por ano este aquífero receba um volume de 160 km3 de água oriunda da superfície. O grande problema por de trás desta infiltração reside no fato da necessidade de que esta água uma vez presente na superfície, não esteja contaminada, caso contrário o aquífero seria terrivelmente atingido.
Existe um potencial enorme de descobertas de novos aquíferos, até mesmo maiores que o Guarani. Aproximadamente 3/4 dos 8,5 milhões de km2 da superfície brasileira correspondem a bacias sedimentares como a do Paraná, (ANA, 2013).
Em suma, o que se pode dizer é que o Brasil possui as maiores reservas de água do mundo, as quais estão distribuídas por toda a nação. Os dados citados anteriormente mostram que deve existir uma prioridade no mapeamento dos mananciais aquíferos e além disso deve haver um monitoramento da qualidade da agua que adentra nestes mananciais para que um dos maiores bens desta nação não seja comprometido.
E aí, o que se pode dizer disso tudo que estamos vendo e ouvindo?
(Artigo escrito em 21/04/2014).
Referências
ANA. Conjuntura dos Recursos Hídricos no Brasil. Agência Nacional das Águas. Brasília, p. 432. 2013.
UNESCO. Managing Water under Uncertainty and Risk. [S.l.]. 2013.
GLEICK, P. H. Water in Crisis: A Guide to the World's Fresh Water Resources. New York: Oxford University Press, 1993.
OEA. Aquífero Guarani: Programa Estratégico de Ação. Organização dos Estados Americanos (OEA). [S.l.], p. 424. 2009.
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